html PUBLIC "-//W3C//DTD XHTML 1.0 Strict//EN" "http://www.w3.org/TR/xhtml1/DTD/xhtml1-strict.dtd"> Retalhos de Pensamentos e Sentimentos: outubro 2005

Retalhos de Pensamentos e Sentimentos

Um espaço de partilha, de reflexão sobre pensamentos e sentimentos que tem como finalidade o convite à catarse individual e eventualmente à evolução no sentido da construção de um brainstorming. Welcome All!

2005-10-29

Sonha e deixa-me sonhar

Teria sonhado todas as vidas para me consolar de não haver vivido nenhuma.
Henri Amiel


Querida Amiga,


Esta carta que não te dirijo, fez-se acompanhar por discretas lágrimas e por um indiscreto sorriso.
Nela, declaro abertamente que desde que partiste em direcção à tua grandiosa missão humanitária, tenho me sentido a ser invadida por mais de ti.


A tua ausência obriga-me a reflectir acerca da relatividade do espaço e do tempo, sobretudo quando tenho em consideração o facto de te sentir mais perto de mim agora que estamos fisicamente mais longe do que nunca, sendo o espaço inter-continental diluído pela força da relação, do desejo e da partilha. Nisto, confronto-me com o facto de vivermos a uns míseros quilómetros de distância e de, lamentavelmente, nem sempre aproveitarmos esse facilidade.


Não são raras as vezes em que dou por mim a pensar no que estarás a fazer, a sentir, a pensar. Simultaneamente, quando procedo a uma análise rigorosa do meu comportamento reparo que tenho vindo a adoptadar os teus gostos: ouço a tua música, vejo os teus teatros, leio os teus textos … e até telefono para a tua mãe.

Quando tento delinear uma justificação plausível para este envolvimento de natureza egossintónica, sou rapidamente transportada para a nossa infância. Desses tempos, evoco com imensa saudade as nossas conversas (adultomorfas, assim me parecem à luz do presente) nas quais confidenciavas os teus múltiplos e variados sonhos que com toda a distinção têm vindo a adquirir o estatuto de realidade (para ti, para eles, para mim e para nós!).
Com alguma tristeza recordo a minha estupefacção ao nomear e assumir um único sonho que se mantém inteiramente presente. Em silêncio, fixava-me nestas conversas e confesso que na altura me sentia diminuída. Num movimento de incansável perseverança, ensaiava hipóteses: Serei pouco sonhadora? Será que terei uma escassa ambição? Não, não me conforme em ser conformista, dizia. Estarei submersa numa visão restrita do mundo?
Rapidamente desancorava-me do meu mundo de dúvidas para partir em direcção à tua galáxia de sonhos, sempre com os olhos a brilhar como uma estrela e com o coração a palpitar perante a elevada probabilidade de encontrar uma estrela cadente nessa viagem.


Interrogo-me se conseguirás imaginar o orgulho e o consequente preenchimento interno que todas as tuas concretizações são capazes de produzir em nós que as vimos crescer sempre de forma tão coerente? Talvez sim ou talvez não …


Agradeço, distintamente, todas as partilhas e confiências …

Querida Amiga,

Obrigada por me deixares viajar pelos teus sonhos!

Imagem: http://aids-children.org/hiv-aids-south-africa-large.jpg - seleccionei esta fotografia porque me faz lembrar as que nos tiravam na escola: a mesma posição, o mesmo sorriso, a mesma inocência e a mesma vontade de crescer ...

De retalho em retalho ...

2005-10-23

Uma de muitas lágrimas ...

Minha tristeza é não poder mostrar-te as nuvens brancas,
e as flores novas, como aroma em brasa,
com suas coroas crepitantes de abelhas.

Teus olhos sorririam,
agradecendo a Deus o céu e a terra:
eu sentiria teu coração feliz
como um campo onde choveu.

Minha tristeza é não poder acompanhar contigo
o desenho das pombas voantes,
o destino dos trens pelas montanhas,
e o brilho tênue de cada estrela brotando à margem do crepúsculo.

Tomarias o luar nas tuas mãos,
fortes e simples como as pedras,
e dirias apenas: "Como vem tão clarinho!"

E nesse luar das tuas mãos se banharia a minha vida,
sem perturbar sua claridade,
mas também sem diminuir minha tristeza.


Texto: Cecília Meireles - Elegia, Mar Absoluto

De retalho em retalho ...

2005-10-20

Relógio sem Tempo


“Embora não surja nos alfarrábios de geografia, no mundo interior há também trópicos e pólos. E continentes. Uns, vastos. E outros que parecem mundos minúsculos e mais ou menos remotos ou perdidos. Mas todos eles representam o espaço, inconfundível, que algumas pessoas ocupam dentro de nós”.
(Eduardo Sá, 2005)
Maria, não tinha qualquer espécie de dúvida relativamente ao espaço ocupado por Francisco no seu coração, nos seus pensamentos, na sua vida … Embora fosse notória a sua dificuldade (ou até mesmo indisponibilidade) em proceder à destrinça entre o Francisco e o Francisco na relação amorosa, revelada por uma tumultuosa definição de espaços, de seres, de papéis, de funções e consequentemente de sentimentos, desejos e de aspirações …

Timidamente e, com um sorriso que pretendia dissimular uma das muitas lágrimas que devido à falta de seca lacrimal ainda percorriam o seu amável rosto a um ritmo que se assemelhava ao do curso dos seus pensamentos, confidenciava que o que mais lhe afligia era a sua falta de conceitualização temporal:

- “ Os dias passam … as noites custam a passar mas quando acordo depois de viagens intermináveis pelo mundo onírico, sinto que o passado tempo de amar se mantém (lamentavelmente) presente!”


Procurou, sem sucesso, instituir referenciais que a ajudassem a se distanciar do passado, tais como: a sucessão de dias e noites, o coração com o seu incansável batimento cardíaco e no qual eram registadas as múltiplas e variadas experiências quotidianas, até que numa associação livre de ideias surgiu um outra coordenada, uma nuvem (?!).


Aparente e desejavelmente, a presença de uma nuvem poderia conduzir à ideia de uma condição climatérica particular como se tratasse de um boletim meteorológico que relatasse o seu humor


Ao se confrontar com a sua tentativa de representação gráfica, Maria chorou e, ainda chora, porque o vento que ao cumprir a função de os separar ainda mais, equivocamente se fez acompanhar por uma nuvem que representa o doce e delicado Francisco.


Perdida no tempo, perdendo-se no espaço, Maria não perde o seu amor por Francisco nem tão pouco o seu desejo de amar solitáriamente.
Imagem: visa representar o mundo interior; os vários tipos de ponteiros descrevem trajectórias num espaço esquecido de um tempo perdido.
De retalho em retalho ...

2005-10-16

Wishing & hoping ...

And then I whispered to my heart:

"The best is yet to come"




Imagem: jogo de cores e tamanhos (conteúdo), mantendo a forma (continente) como analogia às fases de uma vida


De retalho em retalho ...





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