Sonha e deixa-me sonhar

Querida Amiga,
Esta carta que não te dirijo, fez-se acompanhar por discretas lágrimas e por um indiscreto sorriso.
Nela, declaro abertamente que desde que partiste em direcção à tua grandiosa missão humanitária, tenho me sentido a ser invadida por mais de ti.
A tua ausência obriga-me a reflectir acerca da relatividade do espaço e do tempo, sobretudo quando tenho em consideração o facto de te sentir mais perto de mim agora que estamos fisicamente mais longe do que nunca, sendo o espaço inter-continental diluído pela força da relação, do desejo e da partilha. Nisto, confronto-me com o facto de vivermos a uns míseros quilómetros de distância e de, lamentavelmente, nem sempre aproveitarmos esse facilidade.
Não são raras as vezes em que dou por mim a pensar no que estarás a fazer, a sentir, a pensar. Simultaneamente, quando procedo a uma análise rigorosa do meu comportamento reparo que tenho vindo a adoptadar os teus gostos: ouço a tua música, vejo os teus teatros, leio os teus textos … e até telefono para a tua mãe.
Quando tento delinear uma justificação plausível para este envolvimento de natureza egossintónica, sou rapidamente transportada para a nossa infância. Desses tempos, evoco com imensa saudade as nossas conversas (adultomorfas, assim me parecem à luz do presente) nas quais confidenciavas os teus múltiplos e variados sonhos que com toda a distinção têm vindo a adquirir o estatuto de realidade (para ti, para eles, para mim e para nós!).
Com alguma tristeza recordo a minha estupefacção ao nomear e assumir um único sonho que se mantém inteiramente presente. Em silêncio, fixava-me nestas conversas e confesso que na altura me sentia diminuída. Num movimento de incansável perseverança, ensaiava hipóteses: Serei pouco sonhadora? Será que terei uma escassa ambição? Não, não me conforme em ser conformista, dizia. Estarei submersa numa visão restrita do mundo?
Rapidamente desancorava-me do meu mundo de dúvidas para partir em direcção à tua galáxia de sonhos, sempre com os olhos a brilhar como uma estrela e com o coração a palpitar perante a elevada probabilidade de encontrar uma estrela cadente nessa viagem.
Interrogo-me se conseguirás imaginar o orgulho e o consequente preenchimento interno que todas as tuas concretizações são capazes de produzir em nós que as vimos crescer sempre de forma tão coerente? Talvez sim ou talvez não …
Agradeço, distintamente, todas as partilhas e confiências …
Querida Amiga,
Obrigada por me deixares viajar pelos teus sonhos!
Imagem: http://aids-children.org/hiv-aids-south-africa-large.jpg - seleccionei esta fotografia porque me faz lembrar as que nos tiravam na escola: a mesma posição, o mesmo sorriso, a mesma inocência e a mesma vontade de crescer ...
De retalho em retalho ...

1 Comments:
At 9:03 p.m.,
Anónimo said…
É preciso responder à carta, ou basta o tempero salgado das minhas lágrimas que não podes ver, mas que acreditas com a mesma verdade com que acreditas nos meus sonhos?
Beijo muito especial,
Inês
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