Relógio sem Tempo
“Embora não surja nos alfarrábios de geografia, no mundo interior há também trópicos e pólos. E continentes. Uns, vastos. E outros que parecem mundos minúsculos e mais ou menos remotos ou perdidos. Mas todos eles representam o espaço, inconfundível, que algumas pessoas ocupam dentro de nós”.
(Eduardo Sá, 2005)
Maria, não tinha qualquer espécie de dúvida relativamente ao espaço ocupado por Francisco no seu coração, nos seus pensamentos, na sua vida … Embora fosse notória a sua dificuldade (ou até mesmo indisponibilidade) em proceder à destrinça entre o Francisco e o Francisco na relação amorosa, revelada por uma tumultuosa definição de espaços, de seres, de papéis, de funções e consequentemente de sentimentos, desejos e de aspirações …
Timidamente e, com um sorriso que pretendia dissimular uma das muitas lágrimas que devido à falta de seca lacrimal ainda percorriam o seu amável rosto a um ritmo que se assemelhava ao do curso dos seus pensamentos, confidenciava que o que mais lhe afligia era a sua falta de conceitualização temporal:
Timidamente e, com um sorriso que pretendia dissimular uma das muitas lágrimas que devido à falta de seca lacrimal ainda percorriam o seu amável rosto a um ritmo que se assemelhava ao do curso dos seus pensamentos, confidenciava que o que mais lhe afligia era a sua falta de conceitualização temporal:
- “ Os dias passam … as noites custam a passar mas quando acordo depois de viagens intermináveis pelo mundo onírico, sinto que o passado tempo de amar se mantém (lamentavelmente) presente!”
Procurou, sem sucesso, instituir referenciais que a ajudassem a se distanciar do passado, tais como: a sucessão de dias e noites, o coração com o seu incansável batimento cardíaco e no qual eram registadas as múltiplas e variadas experiências quotidianas, até que numa associação livre de ideias surgiu um outra coordenada, uma nuvem (?!).

Aparente e desejavelmente, a presença de uma nuvem poderia conduzir à ideia de uma condição climatérica particular como se tratasse de um boletim meteorológico que relatasse o seu humor
Ao se confrontar com a sua tentativa de representação gráfica, Maria chorou e, ainda chora, porque o vento que ao cumprir a função de os separar ainda mais, equivocamente se fez acompanhar por uma nuvem que representa o doce e delicado Francisco.
Perdida no tempo, perdendo-se no espaço, Maria não perde o seu amor por Francisco nem tão pouco o seu desejo de amar solitáriamente.
Imagem: visa representar o mundo interior; os vários tipos de ponteiros descrevem trajectórias num espaço esquecido de um tempo perdido.
De retalho em retalho ...

0 Comments:
Enviar um comentário
<< Home