Visões do mesmo
Num reino nada distante, limitado a norte pelo sofrimento e a sul
pela desilusão, vivia uma menina que de tudo fazia para não acreditar em contos de fadas. Diz-se mesmo que por vezes vestia vestes escuras enquanto manuseava uma já gasta vassoura …
pela desilusão, vivia uma menina que de tudo fazia para não acreditar em contos de fadas. Diz-se mesmo que por vezes vestia vestes escuras enquanto manuseava uma já gasta vassoura …A menina perdia-se muito no seu tempo perdido, pensando sobre tudo e sobre nada, como ela nos diria e, nessa agitada corrente de pensamentos sentia-se a mergulhar em poderosos sentimentos. As suas consistências eram de tal maneira estruturadas que influenciavam de forma quase imediata o seu estado de humor.
Assim, quando movida pela serenidade, deixava-se ficar no seu reino, desfrutando da estabilidade e seguranças arduamente conquistadas.
Contudo, presentemente, nem sempre os seus desejos se mantinham estabilizados…
Não raramente, na sequência de uma intensa inspiração e da perdedora luta contra a esperança incutida pelos contos de fadas, dirigia-se às suas duplas janelas que lhe permitiam espreitar o mundo lá fora mas de todas as vezes não vislumbrava mais do que exigências injustificadas, incompreensão incompreensível e a quase total ausência de reconhecimento do outro e dos seus feitos.
Quando movida pelo desejo, em sonhos engendrava planos audazes que lhe permitissem aceder a esse mundo exterior ao seu sobejamente já conhecido reino.
Nesse movimento de abertura ao exterior, por vezes sentia-se encadeada por reflexos do(s) não ser(es) e rapidamente regressava ao seu espaço, mergulhando no que entendia como sendo os seus próprios pensamentos …
Certo dia e após prolongada clausura, a menina decidiu adoptar uma nova forma de olhar e de se olhar. De postura tímida mas convicta avançou em direcção aos seus limites e quando sentiu que a fronteira do seu ser passado tinha sido milimétricamente ultrapassada, parou e observou atentamente todo o seu reino. Pela primeira vez, foi capaz de observar e de se observar com a pitada de distanciamento eficaz ao esboçar do mundo e consequentemente ao seu posicionamento neste.
A este novo olhar direccionado a partir do exterior para o interior, chamou-o de “na relação”, sentido que de fora tudo parecia mais belo e encantador, mais doce e colorido, mais sonhador e no entanto tudo se assemelhava como extremamente realista. Confusa e sem querer enganar ninguém, esforçou-se por conjugar estas novas visões do seu reino, de si e do mundo, tentado conciliar a representação e o modelo.
Num reino cada vez mais distante, limitado a norte pelo sofrimento e a sul
pela desilusão, viveu uma menina que de tudo fez para não acreditar em contos de fadas até ao dia em que percebeu que melhor do que se preocupar com o idealismo recusado mas ingenuamente alimentado por si, seria viver integramente ao aceitar as aproximações e distanciamentos face ao mundo ideal que curiosamente sempre pautaram as suas realidades.De retalho em retalho ...

1 Comments:
At 12:18 a.m.,
Anónimo said…
Uma história de encantar...
Com um final nos trilhos do "Feliz".
:)
Ficam a faltar as fadas, para ser mesmo mesmo de encantar!
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